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Observações D'Além da Barreira: O Estado da Arte do Web Design Chinês

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This post is part of a series called Web Design Across the World.
Big in Japan: Web Design in the Land of the Rising Sun

Portuguese (Português) translation by Erick Patrick (you can also view the original English article)

Como mais e mais empresas ocidentais passam a olhar melhor para o mercado chinês, sempre me perguntam sobre as complicações em projetar um site para lá, bem como os pontos técnicos sobre realizar negócios na China. Nesse artigo, responderei as perguntas que mais são feitas.

Primeiro, Uma Observação.

A China é incrivelmente diversa. A divisão entre os vários segmentos da sociedade é tão grande, que é impossível falar sobre a “China” ou “o povo chinês” de forma que englobe todos. Além da tremenda diferença de conhecimento tecnológico entre o povo das cidades grandes, como Shangai ou Beijing, e os das outras cidades, há, também, as diferetes maneiras de ser “Chinês”. Quando falo sobre a “China” nesse artigo, refiro-me, especificamente, sobre a parte principal do território da China e, quando digo “Chinês”, geralmente, refiro-me sobre o cidadão de classe média que vive nas cidades grandes.

Em outras palavras, os pontos elencados aqui são baseados na minha própria experiência na indústria tecnológica da China. Não cobrirei casos únicos de experiência e, para ser breve, farei certas generalizações. Espero que isso não seja problema para você.

Quem Pode Ter Sites na China?

Somente empresas com licença válida de empresa chinesa são permitidas ter sites em servidores Chineses. Pessoas "físicas" não podem ter sites hospedados em servidores da China. Isso é controlado em nível de hospedagem: todo site em servidor chinês deve ser registrado por um número ICP, cujo o servidor de hospedagem perguntará e verificará, antes de você ser aprovado para uma conta. Números ICP são liberados, somente, para donos de empresas. As leis requerem que os números ICP sejam mostrados na página do site, geralmente, no rodapé. Role até o fim da página inicial do Baidu.com e veja, bem próximo do texto dos direitos de cópia, um exemplo dessa lei.

Qualquer um pode "burlar" esse ponto do ICP, pagando uma hospedagem de fora da China, mas isso causa outros problemas:

  • Sites fora da China podem ser bloqueados a qualquer momento pelo Grande Firewall (mais sobre isso, adiante).
  • Sites hospedados nos EUA e na Europa são mais lentos que sites hospedados na China.
  • A pessoa pagando uma conta dessas precisa ter de pagar através de Cartões Internacionais Visa ou Mastercard, que não são tão disponíveis dentro da China.
  • O administrador do site precisa entender bem o suficiente para trabalhar com o painel de administração do servidor.

Uma solução simples para esse problema é hospedar em servidores de Hong Kong. Servidores de Hong Kong são próximo da China, pouco provável de serem bloqueados, mais rápidos, oferecem painéis administrativos no idioma chinês, não requerem um ICP e podem oferecer transferência bancária como método de pagamento.

Qual É a Realidade Diária em Viver Por Trás do Grande Firewall?

É um pouco irritante, às vezes mais, às vezes menos.

A maioria dos grandes sites não-chineses estão, completamente, inacessíveis. Tentar carregar um site bloqueado acaba na velha e conhecida mensagem A Página não pode ser exibida, e por razões desconhecidas, também acaba com a capacidade do seu navegador em carregar quaisquer outras páginas por, mais ou menos, trinta segundos.

Alguns sites estão sempre bloqueados - Twitter, Facebook, Youtube - enquanto outros tem épocas liberadas e bloqueadas (Mashable, Dropbox). Acesso ao Gmail esteve livre por um tempo, até que o RPC (República Popular da China), recentemente, cancelou o acesso, e está bloqueado, permanentemente, desde o meio deste ano (2014).

Alguns sites que tem seus acesso bloqueado nos navegadores ainda podem ser acessados através de aplicativos móveis. Por exemplo: até o momento do lançamento desse artigo, IMDB não pode ser acessado através do navegador, mas o aplicativo para iPad funciona perfeitamente. Similarmente, meu aparelho móvel pode conectar-se via POP/IMAP à minha conta do Gmail, mesmo eu não podendo carregar o cliente web em um navegador móvel, através de uma conexão chinesa. O bloqueio a Apps e sites varia tanto, que muitas conversas de bar nas noites de sexta incluem a discussão sobre quais sites e aplciativos estão bloqueados e em quais aparelhos. O Instagram acabou de ser bloqueado, em 29 de Setembro de 2014, em resposta a protestos ocorridos em Hong Kong. Duvido muito que eles irão dosbloqueá-lo.

Como Você Consegue Trabalhar Nessas Condições?

Três letras: V-P-N. Possuir uma conta de VPN (Virtual Private Network) é de praxe em todos os escritórios de tecnologia, tão normal que nem vale a pena falar.

Para aqueles que não são desenvolvedores: basicamente, uma VPN pega uma conexão web e a repassa para um servidor desbloqueado antes de passar o tráfego para o servidor de conteúdo final, assim, burlando os bloqueios locais. Você quer acessar o Facebook, mas ele é bloqueado. Dessa forma, com a VPN, você pede para ir para algum servidor que esteja, por exemplo, na Australia, de forma que suas requisições aparentarão ser de lá, não da China. Isso parece ser ilegal e até deve ser, no papel, mas (estou apenas supondo), acredito que o governo aceite essa prática até um certo nível: a grande maioria da população não é entendedora suficiente de tecnologia para configurar uma conta de VPN e, sem proficiência em inglês, é bem improvável que terão interesse em qualquer coisa que esteja acontecendo no resto da web.

O Público Chinês ao Menos Sabe Que o Acesso a Internet é Restrito? Eles Se Importam Com Isso?

Novamente, caímos na questão: “Quem é o ‘Público Chinês’”? Na grandes cidades, pessoas com menos de 35 anos e os estudantes universitários estão cientes de não possuir acesso à maioria das redes ocidentais, e isso é algo bastante comentado na internet. Há focos de discussão sobre isso, mas está mais para irritação que uma afronta em si. Parte disso se dá pela existência de sites equivalentes aos grandes nomes da internet ocidental. Assim, há poucos motivos em se usar o Facebook ou Twitter quando se tem Renren, Weixin e Sina Weibo.

renren.com
My Sina Weibo Chinas Twitter user panel
Meu painel de usuário no Sina Weibo ('O Twitter da China'):

Convenhamos: O firewall traz benefícios para as empresas de tecnologia chinesas

Reluto em concordar e não sou a favor dos bloqueios, mas o fato é que esse firewall tem trazido grandes benefícios para as startups locais, agindo como uma encubadora, dando chance aos aplicativos web Chineses a possibilidade de captar uma base de usuários e crescerem. Os usuários que, em outra situação, teriam ido para outra rede social mais estabelecida, são forçados pelo Firewall a escolher alguma rede do país, e, em termos de crescimento de empresas tecnológicas locais, essa abordagem tem funcionado.

O Futuro do Firewall: Ele Deixará de Existir?

Ninguém tem uma respota para isso, mas posso oferecer minha análise. Pessoalmente, acho que só há restrição suficiente para não ser capaz de impedir o crescimento econômico da China. Seria um grande erro proibir empresas locais de interagir com redes internacionais. Além do mais, as crianças que entendem de tecnologia, hoje, serão os legisladores do amanhã. Acredito que, dado tempo o bastante, esse controle ruíra até que o estado em que a China só bloqueará pornografia e tópicos delicados em relação à política.

Mas, quem sabe? Como região, a China tem sido, historicamente, capaz de tomar meios dramáticos de reclusão.

Que Outros Grandes Problemas o Firewall Causa aos Web Designers e Desenvolvedores?

1) A Conexão com a API do Google é Totalmente Falha

Aquela mapa do Google embutido em sua página de contatos? Não carrega na China. Nem as fontes do Google Fontes. Com a exceção do Google Analytics qualquer traço de conexão com a Google API a partir do seu site, faz com que ele entre em loop. Às vezes, ele termina de carregar. Outras vezes, não.

Como resolvemos isso? Esse problema com a API do Google é bem recente e, infelizmente, o Baidu Maps não oferece a funcionalidade de embutir mapas em seu site, nesse momento - não sei se alguém já achou alguma alternativa para isso. Atualmente, dependemos de soluções open source como o OpenStreetMap.

Fontes web são transferidas e hospedadas em um servidor desbloqueado ou em um servidor chinês, de modo que não precisaremos mais conectar com a API do Google.

2) Vídeos Embutidos Não Carregam

Há um enorme e triste rosto onde o seu vídeo de Gatos brincando com caixas deveria estar. Tanto Youtube quanto o Viemo são bloqueados.

E como resolvemos isso? Hospedamos uma cópia do video em um site de vídeos chinês, como o YouKu ou TuDou, para, então, executar um script que carregará o video correto, dependendo do IP do usuário.

Fontes Embutidas e o Idioma Chinês

Ah, sim, meu tópico favorito.

Todo mundo foge das quatro fontes padrões da China - elas são tão, tão, tão usadas, que os designers estão enjoados de olharem para elas. Escrevi um post sobre esse tópico um tempo atrás, mas, para economizar seu tempo: Fontes para web do idioma chinês podem ser embutidos, normalmente, como qualquer outra fonte, através do @font-face. O problema é que, como o idioma é tão grande e contém tantos caracteres, que o tamanho dos arquivos das fontes são enormes - imagine algo em torno de 3~7Mb. Forçar o carregamento total desse arquivo é, na melhor das hipóteses, impraticável.

Até pouco tempo atrás, só tínhamos uma solulção e que não era ideal: se tivesse um número fixo de caracteres que quisesse usar, poderia criar uma versão limitada da fonte, só com esse caracteres. Claramente, isso é impraticável para o design de temas de CMSs.

Google e Adobe lançaram, recentemente, fontes web para o idioma Chinês: (Noto Chinese e Source Han Sans, respectivamente), mas o Typekit pode carregar bem devagar por aqui e com a API do Google bloqueada, estamos impedidos de usá-la em servidores na China.

Source Han Sans
Source Han Sans
Google Sans Hakka Chinese 100 weight
Google Noto Sans Hakka Chinese (peso 100)

O problema foi resolvido, mais ou menos, no ano passado através da Youziku.com FontSelect, uma ferramenta a la Typekit para embutir fontes web. Eles possuem uma biblioteca considerável de fontes e hospedarão sua fonte customizada, caso tenha uma. Se usar o serviço de hospedagem, há um limite de 999 caracteres por página (repetição de caracteres ou palavras não contam para esse limite), assim, se quiser hospedar fontes com eles, o melhor é usar o mínimo possível - só em cabeçalhos, por exemplo. Se precisar de uma opção ilimitada, eles oferecem outra solução em que você mesmo pode hospedar e executar o processamento no seu servidor.

Em Relação a UX, Quais São as Principais Diferenças Entre as Preferências dos Chineses e dos Ocidentais?

Ninguém gosta de complicações

Em nosso Q&A em forma de artigo, @jmshome perguntou, lá no Twitter, se o pessoal chinês prefere designs cheios de palavras ou algo mais minimalista.

@wdtuts @tutsplus @kendraschaefer Ouvi dizer que eles gostam de sites repletos de palavras ao invés de design minimalista. A UX é diferente por lá?

— James H (@jmshome) 10 de Setembro de 2014

Vejo, bastante, essa pergunta, e, na verdade, é um mal entendido bem comum. O povo chinês gosta de simplicidade tanto quanto você, e fique em extase quando Daniel Szuc, de uma empresa de usabilidade lá de Hong Kong, a Apogee, confirmou essa visão em uma conferência, alguns anos atrás - eles tem combatido essa percepção há anos. Na minha experiência, os chineses tendem a achar que interfaces super-minimalistas como de alta tecnologia - o quanto menor e mais puro, claro e sereno o design for, terão uma percepção que é de uma marca luxuosa.

Ninguém gosta de muita complexidade. Então, por que isso parece permear a web chinesa? Acredito que os principais problemas aqui são de baixo conhecimento em relação à usabilidade web, bem como a cultura da duplicação. Há uma enorme quantidade de copiadores que trabalham na criação de sites na China. Alguém cria um site popular repleto de texto, vem o outro e, com medo de não usar a fórmula do sucesso, faz o mesmo. Meus clientes chineses sempre foram mais relutantes que meus outros clientes em dar uma passo rumo "ao desconhecido". Em muitas reuniões, tive de começar falando sobre a importância de não copiar o site de um competidor. Isso não se não porque o povo daqui é menos criativo que os outros - é uma percepção cultural que, ao lançar um novo produto, a melhor maneira de garantir seu sucesso é seguir a fórmula que seus competidores seguiram e já é garantida, ao invés de modificar algumas variáveis mínimas.

Chineses Ainda Não Estão Acostumados Com Grades Largas e Espaçadas

Em termos de diferenças reais em relação à Experiência do Usuário, posso dizer que a grade (grids) largas e espaçadas ainda não chegaram aqui, e muitos chineses acreditam que uma margem de 30px é muito grande, que deixa a página muito desconectada. O olhar local parece preferir grades mais apertadas, tal qual o 960.gs. Não é que não consiga vender uma grade mais larga e espaçada, é que precisa de um pouco de conversa para aceitarem e, acredite, eles ainda olharão um pouco torto.

Evite o Uso de Fotos de Rosto em Preto e Branco

Passei alguns anos para entender o porque da minha sugestão de fotografias em preo e branco sofrerem resistência nas páginas sobre a equipe, quando lidava com clientes chineses. Até que, finalmente, alguém me explicou: esse tipo de foto é usado, geralmente, em funerais, indicando que a pessoa da foto faleceu. Falha minha.

Tecnologia

Sistemas Operacionais

Esconda-se nas montanhas se achar um absurdo, porém, 50% dos usuários de internet chineses ainda usam o Windows XP, com o Windows 7 vindo em segundo, com aproximadamente 33%. Apenas um pouco mais de 1% usa o iOS. Quando a Microsoft finalizou o suporte ao Windows XP, muita gente ficou aterrorizada por aqui. E, agora, você sabe o porque da China correr para desenvolver seu próprio sistema operacional. Contudo, não é porque elas usam o Windows XP que elas estão usando o IE6 (embora 20% dos usuários ainda estivesse usando esse dinossaura em pleno Agosto de 2012).

Navegadores

Advinhe? Em Setembro de 2013, o navegador mais popular da China é um que você nunca ouviu falar: Qihoo 360 Secure, seguido pelo IE, e uma grande fatia “de todo o resto”.

E Em Relação ao SEO Chinês?

A resposta da China para o Google é um mecanismo de busca / desenvolvedor de aplicativos chamado Baidu, que, de longe, é o maior mecanismo na web chinesa.

Assim como com todos os mecanismos de busca, o algoritmo do Baidu é secreto, mas posso dizer que ele indexa, primariamente, sites com domínio .cn ou sites hospedados dentro da China. Se quiser um bom posicionamento nos ranks do Baidu, será preciso de uma versão local do seu site/serviço.

O Panorama Mobile

A navegação através de dispositivos móveis, na China, ultrapassou o desktop muito antes desse acontecimento no ocidenteM, e o acesso móvel na Ásia deixará você louco! O uso é tamanho que, caso seu site não seu adaptado aos dispositivos móveis, você perdeu a grande maioria do seu público alvo. Para os últimos avanços no mercado móvel da China, visite China Internet Watch.

WeiXin

WeiXin, conhecido no ocidente pelo nome inglês WeChat, está quase se tornando universal, de tão popular que é.

WeiXin
WeiXin

Weixin é um aplicativo móvel que incorpora elementos de várias outras redes sociais, funcionando como um aplicativo de bate-papo que suporta conversas em texto, voz, conversas em grupo, feed pessoais no estilo do Twitter, com possibilidade de enviar fotos, seguir pessoas estranhas e todo tipo de coisa nada a ver.

Contas Corporativas Weixin

Desse ano em diante, Weixin passou a oferecer contas corporativas, permitindo que empresas que usam o Weixin enviem atualizações para seus inscritos. Novamente, você precisará de uma licença de empresa chinesa para se candidatar. Dê uma olhada no portal de inscrição para mais informações.

Resumindo

Por aqui, o tom geral da indústria é bem positiva, temperada por um nervosismo distante de que o trabalho possa ruir por conta de alguma lei restritiva ou alguma decisão inesperada de poderes superiores (vai que o governo lança alguma contramedida efetiva contra VPN), mas, com temos bastante fé que isso não acontecerá. O mercado para designers é gigantesco, com empresas nas principais cidades, clamando para contratar talentos do design, bem como clientes começando a valorizar o trabalho bem feito, ao invés de algo rápido e barato. Cruzemos os dedos que essa tendência continue crescendo.

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